![]() |
|
|
Eduardo Mira é jornalista, tem 35 anos e mora em Curitiba-PR. Prefere escrever a falar. É amigo dos amigos e não perdoa uma traição. Gosta de cerveja amarga, de preferência lager, picanha mal-passada, pizza de pepperoni e sashimi de salmão. Pratica natação, aprecia o futebol e acorda cedo pra ver a Fórmula 1. Não suporta obras e palestras de auto-ajuda. Quer ter um filho e escrever um livro. A árvore já plantou em 1999 – um pé de macadâmia – na Austrália.
Archives
|
Quinta-feira, Junho 04, 2009
Esperança: a sobrevivente do voo 447
O Airbus da Air France, que partiu do Rio de Janeiro no último dia 31 de maio com destino a Paris e desapareceu sob circunstâncias ainda pouco esclarecidas, tomou conta do noticiário. São reportagens, especulações, dúvidas e opiniões de especialistas que vão ao ar 24 horas na TV, internet e estão impressas nas páginas de jornais e revistas. Mas o que me chama a atenção não são os aspectos técnicos que devem ser avaliados para determinar as causas do acidente e evitar que outras tragédias como essa aconteçam. O que me desperta curiosidade é o comportamento dos familiares das 228 pessoas que estavam a bordo e a esperança que os cerca. Há pouco assisti a uma entrevista de Aldair Parente, pai do passageiro Marcelo Parente, afirmando que ele ainda tem fé de encontrar o filho vivo, embora tudo indique o contrário. "Eu tenho esperança e a esperança é a última que morre", disse ele, repetindo um dos mais conhecidos jargões populares. Esperança. Palavra complicada de se explicar. Pois se trata de uma sensação emocional que se digladia com a razão do ser humano. É uma crença que vislumbra a possibilidade de se alcançar resultados positivos e conforto às nossas angústias e expectativas. Acreditar que algo ainda é possível mesmo quando tudo indica o oposto. Aldair não está só. Numerosas são as manifestações de esperança dos parentes das vítimas. Que se desesperam com a escassez de informações e a falta de sinais que possam sugerir que alguém tenha sobrevivido. “E se” alguns conseguiram acionar botes infláveis ou coletes salva-vidas e ainda estão boiando à deriva na imensidão do mar? “E se” o piloto conseguiu pousar numa ilha deserta longe da rota do avião, que acabou sendo levado para lá pelos fortes ventos da tempestade atlântica? Pela cabeça dos familiares passam milhares de “e se” por dia. Cenários e hipóteses dos mais improváveis que se recusam a considerar as evidências e as especulações e que personificam e alimentam a esperança. Eles acreditam. Assim como acreditaram os familiares de Will Jimeno e John McLoughlin, dois policiais de Nova Iorque que ficaram 13 horas debaixo dos escombros do World Trade Center em setembro de 2001. Em condições críticas, eles sobreviveram por que também tiveram esperança. De reencontrar os entes queridos. Os filhos, a esposa, os amigos, os pais. E o mundo é cheio de exemplos de que vale a pena ter esperança. Será que é possível desistir de alguém próximo sem que se tenha certeza absoluta de que não há mais o que fazer? Essas pessoas que vagam pelo lobby de um hotel na Barra da Tijuca – e outras tantas espalhadas pelo mundo – buscam uma luz. Algo que os conforte, que aniquile a dúvida que lhes consome. E a esperança é sua melhor companhia. Nem que seja só um paliativo para minimizar o sofrimento. Pois a esperança é o melhor sedativo para uma dor. Nesse caso, em particular, a esperança é a única sobrevivente do vôo 447. Comments: Quarta-feira, Junho 03, 2009
As celulites da Sharapova
Ao abrir recentemente um site em busca de notícias me deparei com a seguinte manchete: “Sharapova revela celulites nas quadras da França”. A notícia era sobre uma foto em altíssima definição que flagrou algumas ondulações na parte inferior da coxa da tenista russa Maria Sharapova, ex-número 1 do ranking mundial, enquanto ela fazia um esforço sobre-humano para alcançar uma difícil bola lançada em sua quadra pela bielo-russa Anastacia Yakimova durante partida do Aberto da França, em Roland Garros. Sharapova venceu a partida por 2 sets a 1 e avançou na edição 2009 do torneio francês, mas o destaque da maioria dos sites de notícias do país foram as celulites reveladas pelas lentes do fotógrafo. Em alguns sites, o resultado da partida e suas parciais foram sequer noticiados, somente que a russa havia vencido a oponente, mas “não conseguiu derrotar uma adversário mais cruel: o fotógrafo” que revelou suas celulites. Ou seja, a futilidade sobrepujou o interesse pela notícia propriamente dita que seria o resultado do jogo. Pois a russa Maria Sharapova é uma esportista. Apesar de ser uma mulher belíssima e considerada uma musa do esporte, ela vive do tênis e não da sua beleza. Isso nos faz perceber que vivemos hoje sob o domínio do interesse doentio pela bobagem. A necessidade de invadir a privacidade dos famosos e das celebridades. É o ator casado que saiu de casa sem a aliança; a atriz que colocou silicone nos seios; a ex-BBB que alugou um apartamento em Copacabana; ou o ex-BBB que desfila “a boa forma” na praia. É um amontoado de jargões, frases prontas e notícias sem o menor interesse coletivo. Fotos e “fatos” que contribuem somente para a desinformação e o emburrecimento da população, que parece estar hipnotizada pelo fuxico e a maledicência. Mesmo que Sharapova fosse uma top model, a análise pormenorizada da foto seria de uma futilidade tremenda. Porque a imagem revelou um nível de detalhamento que o olho humano é incapaz de perceber. E quem esteve em quadra, se foi procurar celulites na russa ao invés de prestar atenção no jogo de tênis, não achou nada. A celulite é um pesadelo para maioria das mulheres. São alterações no tecido gorduroso subcutâneo que provocam ondulações na pele e dão a ela o aspecto de casca de laranja. Mas, se não houver exagero, nada mais normal que a celulite. A maioria dos homens não se incomoda. Acho até que um pouco de celulite torna a mulher mais real. Do contrário fica parecendo uma boneca. A mulher sem celulite provavelmente é aquela que cultua o corpo de uma forma tão exagerada que deixa todo o resto para o segundo plano. Mas o assunto aqui não é a celulite e a preocupação que ela causa no cotidiano feminino, e sim a celulite da Maria Sharapova, um não-fato que só mostra o quão normal ela é como mulher, ignora o quão competente ela é como tenista e denuncia o quão fúteis são os conteúdos produzidos por grande parte das redações dos sites de notícias na Internet. Comments: Domingo, Julho 27, 2008
Aquele maldito Goodyear Bamm! O barulho seco e forte me assustou. Logo percebi que tinha sido um buraco na estrada. Daqueles, tipo valeta, uma verdadeira cratera! “Como é que eu não vi o maldito”, pensei. “Será que paro? Parece que o carro está normal. Vou até em casa”. Quando cheguei vi que a roda havia entortado, vazava ar do pneu e a calota não estava mais lá pra contar história. "Tudo bem, vou trocar o pneu, afinal de contas já tinha feito aquilo várias vezes”. O ESTEPE Comecei então a tirar os apetrechos para a troca do pneu dianteiro direito do meu Ford Fiesta 2001 que eu acabara de comprar zero quilômetro havia dois dias. Pra começar, o estepe do Fiesta ficava embaixo do porta-malas. Apesar de ser a primeira vez que eu trocava o pneu daquele carro já sabia que os engenheiros da Ford haviam cometido tal insanidade. O pneu sobressalente ficava numa espécie de grade que era destravada de dentro do porta-malas. Uma argolinha que você puxa e a grade, automaticamente, cai junto com o pneu. Mas ela não caiu totalmente e, para descobrir o porquê, tive que me ajoelhar no chão (imaginem se eu estivesse numa estrada de terra em dia de chuva vestindo um terno). Numa rápida análise percebi que havia um cabo de aço com um gancho na ponta que segurava a grade. No Manual do Usuário, lido posteriormente, eles chamam de cabo de segurança, para o caso de o dispositivo de liberação do estepe ser acionado acidentalmente com o carro em movimento (dá pra imaginar um Fiesta na estrada com faísca saindo debaixo do porta-malas?). Liberado o pneu, que por estar debaixo do carro fica ABSOLUTAMENTE IMUNDO, continuei o procedimento de troca.A CHAVE DE RODA O segundo passo foi achar o macaco e a chave de roda. O macaco estava lá, mas a chave de roda não. Achei estranho e resolvi analisar melhor - um misto de preguiça, indignação e orgulho não me permitiam recorrer ao Manual do Usuário. Entendendo a lógica dos engenheiros da Ford, percebi que o macaco do carro era dividido em duas partes: a base e a alavanca, e que a alavanca era também a chave de roda, uma barra tri-articulada. "Interessante" pensei. Então, mãos à obra! Pra piorar a situação, das cerca de 15 lâmpadas fluorescentes existentes nos dois pisos de garagem do meu prédio, apenas uma estava queimada. Justamente a que ficava em cima da minha garagem. Na penumbra ficou um pouco mais complicado trocar o pneu, mas que remédio?O MARCELO
Foi então que surgiu com uma lanterna em punho, o Marcelo, o porteiro do turno da noite. Como todo o porteiro, começou a dar palpite enquanto eu afrouxava a primeira porca da roda. – O senhor já tá começando errado!, disse ele com ar professoral. – Por que?, perguntei sem perder a calma. – O senhor tem que levantar o carro primeiro pra depois tirar a roda, proferiu o cidadão que anda de ônibus desde que se conhece por gente. – Você tem carro, Marcelo? – Não senhor. – Já trocou pneu alguma vez, Marcelo? – Não senhor. – Então você não sabe que, se eu levantar o carro antes de afrouxar as porcas, a roda vai girar em falso, né Marcelo? – Ahhhhh. É verdade... – Então aponta a lanterna aqui e deixa que eu troco o pneu, Marcelo. – Sim senhor. A primeira porca foi afrouxada com certa facilidade, a segunda com um pouco mais de dificuldade. Depois de uma escapada, a terceira porca foi bem mais difícil de afrouxar. E na quarta e última porca, a chave de roda não firmava mais. Pra minha surpresa, a chave estava simplesmente deformada. O bocal, inicialmente hexagonal tal qual a porca, havia ficado redondo. A liga era tão mole que não agüentou a pressão de uma simples porca de roda! Não sei que espécie de engenheiro a Ford contrata pra projetar uma chave de roda, que além de ser antiergonômica (a tri-articulação não ajuda nada na hora de trocar o pneu) é feita com uma liga semelhante ao estanho. "Tudo bem", pensei, "é só pegar a chave de roda do carro da minha mulher". Só pelo peso da chave de roda daquele Corsa eu já havia percebido que aquilo sim era uma chave de respeito. Feita com aço do mais resistente! Maravilha de chave!... "Merda!!!!", a porca da roda do Fiesta é maior que a porca do Corsa. VELANDO O PNEU
Já passava das 22h45min e eu não era íntimo de nenhum vizinho o suficiente pra tocar a campainha de ninguém aquela hora, suado, com as mãos pretas, os joelhos sujos e nenhuma vontade de sorrir. Subi no meu apartamento, fiz um gesto para minha mulher indicando que não estava a fim de papo, peguei uma chave de boca das grandes que repousava na minha caixa de ferramentas e voltei pra tentar, pelo menos, afrouxar aquela última porca. Não estava mais preocupado em apertá-las depois, mas tirar aquele pneu já era uma questão de honra. Seria um duro golpe na minha masculinidade se eu não conseguisse trocar aquele pneu. Como o destino estava conspirando contra mim, a pilha da lanterna havia terminado e o Marcelo, prontamente, acendeu duas velas enquanto eu ainda estava no apartamento às voltas com a minha caixa de ferramentas. Voltei e vi o que parecia um despacho de Umbanda: um estepe imundo no chão, um macaco e duas velas que o Marcelo estrategicamente colocou bem em frente ao pneu furado, como que velando um morto. Obviamente ficaria muito difícil afrouxar uma porca com uma chave de boca sem me queimar ou, pelo menos, sentir o calor daquelas duas chamas na perna. – Marcelo, vai cuidar da portaria. – Sim senhor. Infrutíferas foram as tentativas de desatarraxar aquela porca com a chave de boca. A cabeça da chave era grande demais. Com medo de espanar a porca e piorar mais ainda a situação, desisti. O CHINA
Já ia recolhendo os apetrechos e me dando por vencido quando surgiu um esbaforido Marcelo anunciando as boas-novas: – Seo Eduardo, o China tá chegando! – Quem é o China? – O morador do 102! Naquele momento surgia na rampa de acesso à garagem uma Palio Weekend bordô com o tal de China a bordo. Sim, talvez minha sorte estivesse mudando. Mais do que depressa retirei uma das porcas que estava frouxa com a mão e fui ao encontro do China na esperança de ele resolver o meu problema. Sem o menor traço de ascendência oriental, o China foi receptivo e se mostrou interessado em não só me ajudar a resolver a situação, como descobrir onde ficava o estepe do carro dele com a respectiva chave de boca. Ele precisou recorrer ao Manual do Usuário (AHÁ!) sob os olhares decepcionados da namorada que o acompanhava. As mulheres não admitem que um homem não saiba trocar um pneu nem tão pouco que desconheça onde se encontra o estepe do próprio carro. Olhar no Manual é uma coisa que elas mesmas podem fazer. O ASSALTO
Três minutos depois, o China encontrou a chave de roda da Palio, que serviu como uma luva à minha porca. Maravilha. Agora era pessoal. Com uma chave de roda decente aquela porca ia ver só. Novamente na torcida, Marcelo roía as unhas esperando a desenlace daquele episódio. E não houve decepção. A porca afroxou! Já passava da meia-noite quando o carro baixou já com o estepe colocado. Fui, enfim, dormir. Ás 7h30min da manhã, depois de tomar o café, desci para ir ao trabalho. Cumprimentei o Marcelo como de costume, embora ele nunca estivesse amarrado à cadeira e amordaçado antes. - Meu Deus! O que aconteceu, Marcelo?, perguntei enquanto o desamarrava. - Uma tragédia, Seo Eduardo! Dois malacos me renderam e roubaram um carro na garagem... Antes que ele terminasse de falar, corri para a garagem. Ao chegar vi que o Fiesta não estava mais lá. Porque é que eu fui trocar aquele maldito Goodyear?! Comments: Domingo, Julho 20, 2008
Uma agradável sensação de déjà vu
Por um instante tive uma estranha, mas muito agradável, sensação de déjà vu ao ver um Piquet de novo no pódio. Foi como voltar no tempo. Acompanhei o grande prêmio de Hockenheim com certa perplexidade. Torcendo pro Felipe Massa liderar o campeonato, mas não querendo que ele ultrapassasse o Nelsinho Piquet. Cruzei os dedos. Na verdade eu queria mesmo é que a McLaren do Hamilton quebrasse. Aí seria demais ver um Piquet no alto do pódio. Ainda vou ver, tenho certeza. Eu nunca gostei muito do Ayrton Senna. Não como piloto – inegavelmente ele era um gênio – mas como pessoa. Não sei ao certo o quê, mas não gostava. Talvez o jeito de nerd de ser, obcecado por correr e correr, em ter o melhor carro, colocando a Fórmula 1 acima de tudo, da família (não teve filhos) da vida amorosa (belíssimas mulheres, mas relacionamentos superficiais), das amizades (o Gehard Berger conta em seu livro que o Senna era meio egoísta e interesseiro). Sei lá... Torci por ele em muitas corridas, vibrei com ele em muitas conquistas, madruguei muitas vezes para vê-lo correr do outro lado do mundo, quase cai da cama ao acompanhar a mais fantástica primeira volta da história da Fórmula 1, no circuito de Donington Park em 1993 quando, debaixo de muita chuva, Senna saiu do 4º lugar no grid para liderar a prova nos fazendo crer que ele estava em pista seca e os outros no molhado com pneus lisos. E chorei por ele quando nos deixou repentinamente de uma forma estúpida e violenta na curva Tamburello no ano seguinte. Mas eu gostava era do Piquet. Achava ele meio anti-herói, casca grossa, arrogante, malandro, mas guiava muito e tinha personalidade. Sempre fui do contra, pra falar a verdade. Talvez gostasse ainda mais dele porque ele não gostava do Senna. Pode ser. O fato é que, quando eu comecei a acompanhar a Fórmula 1, o Nelson Piquet havia conquistado o seu primeiro campeonato mundial, em 1981. Identifiquei-me com ele e acompanhei suas conquistas de 1983 e 1987. Fiquei puto da cara em 1986 quando a Williams, beneficiando um piloto inglês – o Nigel Mansel – tirou o que seria o terceiro título do Piquet e entregou o campeonato ao Prost, aproveitando a ausência forçada do Frank Willians, que havia declarado Piquet o primeiro piloto da equipe. Vibrei quando ele encheu o Eliseo Salazar de porrada no GP da Alemanha de 1982, quando ele venceu o GP de número 500 da Fórmula 1 com a sofrível Benetton V8 em 1990 ou quando ele ultrapassou o Senna por fora, “de lado”, travando roda na reta de Hungaroring em 1986, um dos lugares mais improváveis para se fazer uma manobra daquela, considerada como uma das mais belas da história da Fórmula 1. “Foi como fazer um looping com um 747”, disse o tricampeão Jackie Stewart. Ao contrário de quase todos os brasileiros eu era Piquet. Até ele abandonar a Fórmula 1 em 1991, dando lugar no posto de primeiro piloto da equipe a um certo Michael Schumacher. Por isso comemorei hoje o retorno do sobrenome Piquet ao pódio, assim como torço para que o Bruno Senna venha logo. Quem sabe os dois possam resgatar um pouquinho daqueles fantásticos bons tempos do Brasil na Fórmula 1, quando éramos os donos do pedaço. Comments: Domingo, Julho 13, 2008
A idiotização do consumo ![]() O sorridente cidadão da foto acima é um idiota. Ele se chama Brett Howell, tem 36 anos, é australiano, e garantiu seus 15 minutos de fama – apareceu em todos os sites, jornais e TVs do mundo – porque teve a espetacular idéia de ficar 10 horas e 46 minutos parado em frente a uma loja de artigos eletrônicos em Sydney, sob um frio de 11º C, e ser o primeiro ser humano do planeta a comprar o novo iPhone 3G da Apple, lançado no último dia 11 de julho em 22 países – em virtude do fuso horário, Austrália e Nova Zelândia foram os primeiros países a começar a vender o iPhone. Howell faz parte de um grupo de pessoas que se apegam a marcas e produtos de tal maneira que confundem consumo com idolatria. Não se trata apenas de indivíduos consumistas, que adoram comprar e consumir qualquer novidade que seja, independente da marca ou modelo, só pelo prazer de estar atualizado. São fanáticos por marcas, produtos, séries de TV ou franquias de filmes específicos, a ponto de perder referenciais e agir como um torcedor de futebol, onde não há equilíbrio ou bom-senso. Não que o iPhone em questão não mereça admiração. Trata-se de um dos mais geniais inventos da era da comunicação digital, com recursos exclusivos e a assinatura de um dos maiores cérebros da atualidade, Steve Jobs. O problema é a forma como esse aparelhinho é cultuado e utilizado de forma a criar uma espécie de apartheid digital. Para eles, se você não tem um iPhone está à margem da aldeia global. Enquanto isso, Steve Jobs ri à toa e enche os bolsos ainda mais, sabendo que os escravos da Apple não irão titubear em comprar os aplicativos para o brinquedinho, muito menos a nova versão do telefone que certamente chegará às lojas daqui 12 meses, com Howell e sua turma mais uma vez hipnotizados na fila da loja esperando o primeiro minuto da venda do gadget atualizado. Em seu livro Cercas e Janelas, a jornalista canadense Naomi Klein, revela que as marcas têm apostado na idiotização do ser humano e na baixa evolução humana. Klein mostra que a lógica das empresas é não gastar seus recursos finitos em fábricas e máquinas que se desgastam ou funcionários que envelhecerão ou morrerão. Ao invés disso, elas deverão concentrar seus recursos em aspectos que ajudarão a construir suas marcas, como patrocínios, embalagens, expansão e publicidade. É a força do branding, que vem absorvendo todo o valor agregado, fazendo com que um produto atinja margens próximas de 400% entre os custo de fabricação e o preço de varejo. Na falta de tradição, referências, heranças filosóficas e religiosas, o indivíduo volta-se para objetos e serviços como o centro de sua existência, algo fundamental para o processo de criação de sua identidade. As marcas passam a preencher um espaço antes ocupado por outras instituições, onde a construção de símbolos e imagens supera, em muito, as funções do produto. É esse o ponto fundamental da idiotização do consumo. Que nos transforma em seres obtusos, cegos e autômatos, pronto para receber goela abaixo o que a indústria nos empurra. É o viciado em Apple que prega o ódio à Microsoft ou o fã de Guerra nas Estrelas que não admite a chatice da segunda trilogia, com roteiros arrastados, e segue comprando tudo o que for relacionado aos jedi. Ou o ótimo Matrix, que pela cobiça dos produtores foi totalmente desfigurado nas péssimas duas seqüências, mas arrastou uma legião de aparvalhados aos cinemas que nunca admitirão terem sido enganados ao assistir a dois filmes confusos e chatos. E o que dizer do cidadão que tatua a logomarca da Harley Davidson? Ou dos adoradores de tudo o que tiver a marca Nike, que pagam os olhos da cara por um produto nem sempre tão superior que o da concorrência. E ai de quem criticar o objeto de paixão desses idiotas. Não há o menor problema em gostar ou admirar marcas e produtos pela sua qualidade, durabilidade, ou mesmo o status e conforto que elas proporcionam. A fixação e o fanatismo é que causam preocupação. Afinal, não podemos nos tornar defensores ferrenhos e dependentes de empresas que nos consideram apenas mais um consumidor em meio à multidão. Comments: Quinta-feira, Julho 10, 2008
Tadeu e o OVNI Tadeu era um empresário bem-sucedido. Agressivo nos negócios virava um doce de pessoa em casa. Tinha dois filhos, Anita e João Pedro, e uma mulher fantástica: Marta. Mãe e dona de casa exemplar, Marta cuidava da bela residência da família com esmero. Levava os filhos na escola, ia ao supermercado abastecer a despensa, comprava frutas na feira, supervisionava a lavadeira, a passadeira, a cozinheira e ainda cuidava da horta e do jardim. Tadeu reconhecia isso e amava estar com sua esposa e filhos. Tudo seria perfeito se não fosse Ana Júlia, a secretária de Tadeu. Loira vistosa, seios fartos e pernas torneadas, Ana Júlia era um espetáculo. Por onde passava chamava a atenção dos homens e causava inveja nas mulheres. Determinada e ambiciosa, Ana Júlia planejara crescer na empresa a qualquer custo e não demorara a fisgar o patrão Tadeu. O relacionamento amoroso proibido dos dois já durava quase dois anos e os encontros, invariavelmente num dos motéis da BR 277, eram recheados de sexo, romance e juras de amor. Até que começaram as cobranças por parte de Ana Júlia. – Você prometeu que ia pedir a separação na semana passada! – Eu sei, meu amor, mas não é fácil terminar um casamento de 15 anos – argumentava Tadeu. – Eu estou cansada de ser a outra. De passar finais de semana sozinha, sem ter você ao meu lado no Natal, no Dia dos Namorados, nas férias... – Eu sei querida, eu vou resolver essa situação. Confie em mim. Tadeu estava num mato sem cachorro. Se por um lado amava Marta – que esteve sempre ao seu lado, mesmo nos momentos difíceis do início do casamento e da empresa – por outro sentia-se atraído por Ana Júlia, que além de ser bela e formosa era uma mulher bem-humorada, inteligente, moderna e...bem jovem. Ele queria continuar como estava. Para ele era ótimo ter duas mulheres tão especiais. Queria Marta e os filhos com a harmonia familiar e também Ana Júlia que trazia o ímpeto da juventude e a vontade de viver e descobrir coisas novas. Na sexta-feira, Tadeu levantou, tomou o café da manhã e se preparava para sair quando foi lembrado por Marta: – Não esqueça que amanhã cedo nós vamos para a praia. Por isso, não beba demais no seu happy-hour com o pessoal da empresa e nem chegue muito tarde. O happy-hour, obviamente, era a desculpa que Tadeu dava em alguns dias da semana para encontrar-se com Ana Júlia. – OK, meu amor, eu chego cedo, disse Tadeu. No final do expediente, Tadeu e Ana Júlia se encontraram no motel de sempre para a “hora feliz” das sextas-feiras, sempre mais especiais que as outras porque os dois só voltariam a se ver às segundas. Ao final da maratona sexual, um pouco embriagado por causa da champagne e cansado da semana estafante dos negócios, Tadeu adormeceu profundamente. Vislumbrando a oportunidade que tinha ao seu alcance, Ana Júlia dirigiu-se até o banheiro da suíte e desligou o celular de Tadeu que estava no bolso do seu paletó. A secretária, então, voltou pra cama e, silenciosamente, cuidou para que Tadeu perdesse a hora, o que certamente levaria a uma discussão dele com a esposa e, quem sabe, traria motivos para a tão prometida separação dele com Marta. Ao acordar, Tadeu olhou no relógio e não acreditou no que os ponteiros mostravam: seis horas da manhã de sábado! Num pulo, saiu da cama incrédulo: – Meu Deus, como isso foi acontecer? Seis horas da manhã e eu não cheguei em casa! O que é que eu vou dizer pra Marta? – Calma, amor, fala que...você dormiu no carro! – Que dormiu no carro, Ana Júlia. Você acha que ela vai acreditar? – Fala que você teve que...levar a sua mãe no hospital! – Minha mãe morreu faz cinco anos, Ana Júlia! Eu penso numa desculpa no caminho. Fui! No caminho de casa, desolado, a vida de Tadeu passava pela sua cabeça como um filme. O que ele iria dizer? E se a Marta não acreditasse na história (que ele ainda nem tinha bolado), o que seria dele? Como ele iria viver longe dos filhos? E a partilha dos bens? Ao abrir o portão de casa, a cena era aterrorizante. Com cara de poucos amigos, Marta estava em pé na garagem com malas, cadeiras de praia e guarda-sóis de um lado e os filhos de outro. Antes que Marta começasse a gritar, Tadeu se adiantou e disse: – Você não vai acreditar no que aconteceu comigo, querida. – Eu penso o mesmo...CACHORRO! – Meu bem, ontem à noite, quando eu saí do happy-hour, lá pelas onze horas eu estava vindo pra cá, quando de repente eu avistei um luz. Mas uma luz muito forte, branca e intensa. De repente eu senti meu corpo levitar, junto com o carro. Aí eu desmaiei e só me lembro de estar deitado numa espécie de clínica com um monte de homenzinhos verdes me examinando. Foi horrível! Quando eu acordei, eu estava dentro do carro numa estrada perto de Ponta Grossa. Aí eu vim correndo pra casa. No caminho do motel para a casa Tadeu lembrara de uma história que havia lido na Internet sobre um jovem chileno que procurou a polícia local para contar que sofrera abdução em pleno deserto de Atacama. – MARTA, EU FUI ABDUZIDO POR EXTRATERRESTRES! Tempos depois, ao assinar o divórcio, Tadeu ainda se lamentava por não ter conseguido fazer Marta acreditar na sua história. Atualmente casado com Ana Júlia, que está grávida, ele contratou Dona Rosa, uma senhora de 66 anos como sua secretária, justamente para não cair mais nas tentações da carne. Entre as atribuições de Dona Rosa está a de pesquisar diariamente na Internet, em jornais e revistas de todo o mundo, notícias sobre abduções, óvnis e ET’s. Toda vez que encontra, Dona Rosa encaminha o material para o patrão, que recorta, coloca num envelope e envia à ex-mulher com os seguintes dizeres: – Viu? Eu não falei que era verdade? Comments: Sexta-feira, Junho 27, 2008
Temporão, o ministro Fanfarrão Indiferente à tragédia da Santa Casa de Misericórdia de Belém, no Pará, onde já morreram 17 bebês em menos uma semana, o ministro da Saúde, José Carlos Gomes Temporão, médico sanitarista luso-brasileiro, vem a público anunciar “a maior campanha de imunização feita no MUNDO contra a rubéola”. Temporão fez o anúncio com toda a pompa e circunstância que lhe é peculiar, como se a rubéola fosse o único problema sanitário brasileiro e como se o Brasil não fosse reconhecido internacionalmente pela Organização Mundial de Saúde (OMS) devido ao sucesso do Programa Nacional de Imunizações (PNI). Atenção, ministro! A excelente estrutura de imunização brasileira independe do mandatário da pasta da Saúde, pois conta com dedicados servidores públicos que estão há décadas no comando de uma bem sucedida rede de mais de 70 mil postos de vacinação que conta com a participação de mais de 200 mil pessoas, entre servidores e voluntários. Nesses 35 anos de PNI, foram erradicadas doenças gravíssimas como a varíola e a poliomielite.
Acorda, ministro falastrão!
Comments: Quinta-feira, Junho 26, 2008
Seja bem-vinda Beatriz Feliz coincidência. Não poderia inaugurar o meu blog com melhor notícia. Nasceu Beatriz, filha do meu irmão Ricardo e da minha cunhada Flávia. Seja bem-vinda querida. Vai demorar alguns anos pra você ler este post, mas, se o teu pai ainda não te contou, seu nome vem do latim Beatrix, que quer dizer bem-aventurada, aquela que faz alguém feliz. Pois saiba que já no seu primeiro dia de vida você fez um bocado de gente feliz, especialmente seus pais, avós e o tio aqui. Esse nome deriva do um verbo em latim Beare, que significa atender aos desejos de alguém, tornar alguém rico de espírito. Não tenho dúvidas que esta será você, a julgar pelo seu pai, um grande cara a quem eu tenho muita admiração, apesar de vê-lo pouco hoje em dia por causa da correria do dia-a-dia.
Um beijo do tio Dudu
Comments: |